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Transmontanos e Durienses +

V


VIEGAS, Francisco José (15 03 1962, Pocinho. Alto Douro)

Licenciado em Letras pela Universidade Nova de Lisboa. Leccionou na Universidade de Évora entre 1983 e 1987. Jornalista, crítico literário, poeta e romancista. Colaborador em vários periódicos, entre os quais destacamos: Expresso. JL, Ler (onde actualmente é director). Semanário, Visão.
É também autor de livros de viagens (Comboios Portugueses (1988) e de uma peça de teatro (O Segundo Marinheiro. 1988). Estreia se na literatura com Olhos de Água (1983), publicando posteriormente As Imagens (1987), Todas as Coisas (1988) e O Medo do Inverno Seguido de Poemas Irlandeses (1994), livros que se inscrevem na tradição da poesia da comunhão ou de consagração (do espaço. do amor, da amizade): "agradece o tempo. as miragens, as neblinas / as orações. as sombras isto te ajudará / a ignorar o mau amor, aquele que lembras". (O ATedo do Inverno). No entanto, em muitos momentos, essa poética de carência, indiciando também o sentido trágico da existência: "o tempo vai passando. Vamos morrendo devagar / subindo o rio, descansamos sob os choupos / as vinhas escurecem como a luz do dia" (ibid.). A recorrência, quase obsessiva, às imagens dominadas pelo elemento líquido (águas superficiais e águas profundas) apontam, bachelardianamente, para espaços abertos e fechados, espaços de vida e de morte onde sujeito e objecto se confundem: "é um jogo estreito, esse onde o rio desenha / uma obscura e frívola saudade de tudo" (Todas as Coisas). Publica, em 1987, Regresso por Um Rio (Imaginações para uma novela), incursão do autor na ficção narrativa, escrita contaminada pelo real, pelos sentidos, pela memória ("As gentes da aldeia, sempre ouvi dizê lo, têm um rio nos olhos"). O próprio título desse "projecto de novela" já indicia o retorno do autor à imagem obsessiva do rio (dessa vez o Douro da infância) conotado com a existência humana, com a dimensão ontológica do sujeito, com a própria memória ancestral e colectiva. A partir das publicações dos livros Crime em Ponta Delgada (1989), Morte no Estádio (1991), As Duas Águas do Mar (1992) e Um Céu Demasiado Azul (1995), o autor afirma se como escritor de romances policiais, inscrevendo se numa tendência que tem caracterizado uma boa parte da ficção das décadas de 80/90, que é o revivalismo dos géneros ou formas mais tradicionais da narrativa. Nos livros citados, o revivalismo do romance policial é feito através da paródia, que funciona na sua natureza ambivalente como transgressão e, simultaneamente, como homenagem ao género. Procurando novas modalidades estilísticas, o autor rompe intencionalmente com um certo esteticismo, através de um projecto de escrita que opera num campo de conciliação entre tradição e inovação, a chamada "cultura de massa" ou arte popular e a chamada "alta cultura" ou arte de élite. Em Um Céu Demasiado Azul, que a crítica vem apontando como o seu romance mais amadurecido do ponto de vista da construção das personagens e da própria densidade narrativa, o leitor reencontra se com a dupla de detectives (o inspector do Porto, Jaime Ramos, e o seu amigo Filipe Castanheira, um continental que vive em Ponta Delgada) a tentar resolver mais um complicado crime. Como nos outros livros, entre os minuciosos relatórios de investigação, divagações mais ou menos filosóficas sobre questões existenciais. Acompanhando as convenções do género, temos obviamente, nesses personagens e nessas histórias, ressonâncias dos modelos de detectives mais famosos, às voltas com inúmeras mortes, viagens, mulheres e alguns requintes gastronómicos. Aliás, em todos os livros citados a comida é um elemento relevante, pois como bem diz o inspector Ramos, sempre às voltas com os mais variados petiscos transmontanos, "quero a literatura assim, lida e comida" (Morte no Estádio). Mas o que dá originalidade a essas histórias é a maneira como o autor as investe, com uma certa tonalidade bem portuguesa, ou como observou Torcato Sepúlveda: "Que em Um Céu Demasiado Azul um antigo esquerdista reconvertido na publicidade seja assassinado, só interessa porque isso diz coisas de nós. (...) somos nós que por ali andamos: corpos prometidos à morte, sonâmbulos vivendo de memórias apagadas, cadáveres adiados" (Público, 1995). O que confirma também a singularidade desse livro é a sua contaminação, em vários momentos, com a poesia (ao fim e ao cabo o poeta de Todas as Coisas, sempre acaba por voltar ao lugar do "crime"): "Um céu demasiado azul que esconda a memória das tempestades, dos relâmpagos em pleno céu, da chuva arrastada até às janelas da casa. Um céu demasiado azul e que ofusca a limpidez do que está próximo ou a pureza do que se aproxima como uma vertigem".
OB. PRINC.: Poesia: As Imagens, Lisboa, 1987; Todas as Coisas, Lisboa, 1988; O Medo do Inverno Seguido de Poemas Irlandeses, Lisboa, 1994. Ficção: Regresso por um Rio (imaginações para uma novela), Lisboa, 1987; Crime em Ponta Delgada, Lisboa, 1989; Morte no Estúdio, Lisboa, 1991: As Duas Águas do Mar, Porto, 1992; Um Céu Demasiado Azul. Lisboa, 1995 (Porto, 1995 ).
BIBL.: Besse, Maria Graciete, "As imagens" e "Regresso por um rio" (recensão crítica) in Colóquio/Letras, n.° 101, 1988; Sepúlveda, Torcato, "Um Céu Demasiado Azul" de Francisco José Viegas" in Público (Leituras, 11 0495.
M.N.G.S.


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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