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TORGA, Miguel (12 08 1907, S. Martinho de Anta 17 01 1995, Coimbra).

Nasceu na região de Trás os Montes, passando algum tempo da sua juventude no Brasil, de onde regressou em 1925. Frequentou a Faculdade de Medicina de Coimbra, onde se formou. Integrado no meio literário coimbrã, acompanha o grupo que formou a revista Presença, cuja publicação se inicia em 1927; mas, a breve trecho, afastar se á, sendo um dos fundadores, em 1930, das revistas Sinal e, um pouco mais tarde, Manifesto. A sua actividade literária desenvolve se no domínio da ficção, do teatro, da poesia e do memorialismo, usando nas primeiras publicações o seu próprio nome Adolfo Correia da Rocha. A sua poesia inicial, se considerarmos o livro Ranapa (1930) ainda com a chancela da Presença e que nunca será reeditado, émarcada por um tom declamatório que a aproxima de uma linguagem ostensivamente discursiva que, aliás, é também a do seu companheiro de geração José Régio. No entanto, há tematicamente um certo desvio relativamente a Régio pelo modo como éminimizada uma referência religiosa, dado que Miguel Torga se empenha na afirmação de uma imanência humana que tende mesmo a pôr em questão qualquer transcendência divina, o que não exclui, de certo modo, a vivência humana que decorre polemicamente dessa negação. Eduardo Lourenço fala num "desespero humanista", considerando o modo como Miguel Torga defende uma literatura mais "interessada" ou " comprometida" na realidade ou na situação humanas, privilegiando se aí a própria dimensão do eu, o qual tantas vezes se manifesta através de conflitos vividos consigo mesmo, com o outro ou com a própria criação literária (sendo esta a "musa insatisfeita" a quem o poeta se dirigirá assim: "Pisa os meus versos"). Tudo isso implica um envolvimento fortemente subjectivo por vezes dir se ia mesmo pessoal , a que um pathos explorado verbalmente dá um forte acento oratório. Curiosamente, será em obras de carácter memorialístico e, portanto, de índole mais subjectiva ou pessoal que se nos depara com uma outra direcção na sua poesia. Com efeito, nos vários volumes do seu Diário, cujo primeiro volume saiu em 1941, é possível surpreender uma maior contensão, um vivo sentido de unidade dado pelo modo como o poema verbalmente se concentra em certas imagens, uma maestria rítmica que acompanha a surpresa que decorre da visualidade dessas imagens, muito ligadas à revelação de um mundo agrário ou pastoril que sempre se há de apresentar como denominador comum na obra de Miguel Torga. Ao mesmo tempo, surpreende se um registo todo voltado para uma interioridade que já não se confunde com uma manifestação de subjectivismo ou expressão confessional que fosse directamente expressa. Esta nova opção poética fará com que o nome de Miguel Torga se possa aproximar do de outros poetas como Vitorino Nemésio e Ruy Cinatti, que, seguindo entre si caminhos muito diferentes, marcaram a partir dos primeiros anos da década de 40 a passagem para os anos 50, o que representa, em última análise, um verdadeiro desvio relativamente à poética presencista. No entanto, a poesia de Miguel Torga, até à publicação de um dos seus últimos livros integralmente constituído por poemas, Câmara Ardente (1962), não se exime a retomar uma certa eloquência onde a revolta ou a crítica social se convertem em imprecação ou invectiva: "Acordo e recomeço / O canto interrompido: / O desvairado canto / Da ira irrequieta...". Em Alguns Poemas Ibéricos (1952); reed. acrescentada em 1965, com o título Poemas Ibéricos cria se, através de vários leitmotive, como os da terra, a pobreza do solo, a expansão marítima, o espírito liberto "por ascese" ou a luta contra a repressão, um imaginário que se identifica com a realidade da Ibéria. Aí se desenvolvem algumas detectáveis referências a Unamuno, Oliveira Martins ou o Fernando Pessoa da Mensagem, as quais são envolvidas pela linguagem metafórica e dramaticamente afirmativa que tão característica éde Miguel Torga e que o levou a dizer, no vol. IX do Diário, que "a minha humanidade tem agora as dimensões da Península, com todas as contradições que a dilaceram harmonizadas".. Como ficcionista, escreveu, entre outros, os seguintes livros: Bichos (1940), Contos da Montanha (1941) O Senhor Ventura (1943), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (1945). Uma incidência temática ou envolvimento de tipo agro pastoril a que já nos referimos é sugestivamente desenvolvida nestas suas obras, o que particularmente ocorre num dos livros mais conhecidos e traduzidos de Miguel Torga, Bichos. Há nos seus contos uma sugestiva oscilação entre personagens do mundo animal e do mundo humano que, em certos momentos, cria com vivacidade, uma disposição imaginativamente mais complexa do que aquelas derivações de ordem moral, tão características das fábulas, o que poderia ser exemplificado pelo conto "O Senhor Nicolau", onde se assiste a uma perversa e kafkianamente imaginosa metamorfose de um entomologista amador num insecto conforme se aproxima a hora da sua morte. A obra teatral de Miguel Torga é relativamente breve. Em 1941 saem conjuntamente duas peças: Terra Firme e Mar, que, depois, serão editadas separadamente. Ainda nos anos 40, e indo ao encontro de uma linguagem alegórica que também se faz sentir na sua poesia, publica Sinfonia (1947) e, retomando o tema bíblico do fratricídio de Caim, O Paraíso (1949). É, igualmente, autor de obras de carácter ensaístico, impressões de viagem, conferências, etc. Já se aludiu ao pendor memoralista que há numa parte importante da sua obra quando nos referimos ao Diário e às poesias nele contidas. Nesta obra, que ultrapassa a dezena de volumes, encontram se também múltiplas reflexões e tomadas de posição crítica em relação a vários acontecimentos (como os que dizem respeito àrevolução de 25 de Abril ou às suas sequelas e desvios), apreciações culturais, referências a viagens e várias personalidades, etc.. De uma forma mais estruturada sob o ponto de vista ficcional, essas referências biográficas são retomadas em A Criação do Mundo: Os Dois Primeiros Dias (1937), obra prosseguida noutros volumes que saíram posteriormente.
OB. PRINC.: Além das cit. Supra, referimos os seguintes livros de poesia, todos editados em Coimbra: O Outro Livro de Job, 1936; Lamentação, 1943; Libertação, 1944; Odes, 1946; Nihil Sibi, 1948; Cântico do Homem, 1950;
Penas do Purgatório, 1954; Orfetr Rebelde, 1958. BIBL.: Gonçalves, Fernando Magalhães, Ser e Ler M. T, Lisboa, 1955; Lourenço, Eduardo. O Desespero Humanista de M.T, Coimbra, 1955; Augusto, Armindo, O Drama de M.T, Braga, 1960; Melo, José de, M.T., Lisboa, 1960; Peyre, Ivonne David, M.T, et l'Aneien Testament. Lisboa, 1976; Rocha, Clara, O Espaço Autobiográfico em M.T, Coimbra, 1977; Jesus, Herrero, M.T., Poeta Ibérico. Lisboa, 1979; Lopes. Teresa Rita. Miguel Torga Ofïcios a " nm Deus de Terra ". Porto. 1993. Há estudos que lhe são dedicados nos seguintes livros: Lopes, Óscar, Cinco Personalidades Literárias, Porto, 1961; Mourão Ferreira, David, Tópicos de Crítica e de História Literária, Lisboa, 1969, e Uunpadas no Escuro, Lisboa, 1979; Cruz, Gastão, A Poesia Portuguesa hoje, Lisboa, 1973; Coelho, Jacinto do Prado, Ao contrário de Penélope, Lisboa, 1976; Moura, Vasco Graça, Várias Vozes, Lisboa, 1987; Lepecki, Maria Lúcia, Sobre impressões, Lisboa, 1988; Seabra, José Augusto, Poligráfias Poéticas, Porto, 1994; Comunicações de um Congresso sobre M.T.: Aqui Neste Lugar e Nesta Hora, Porto, 1994.
Fernando Guimarães


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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