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ROCHA, Adolfo Correia da (19071995)

adoptou como pseudónimo Miguel Torga. Natural de São Martinho de Anta, Trás os Montes. Porque apesar da sua convicção de que "um poeta não tem biografia, tem destino", ou precisamente por causa disso a palavra representou uma questão de vida ou morte e foi para o poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta Miguel Torga o caminho iniludível para aprofundar na procura do seu "eu" espiritual, social e artístico, e na defesa activa dos direitos humanos no tempo concreto em que o seu destino se integrou. Vida e literatura indissoluvelmente ligadas como pradigma de uma vontade titânica de vencer o circunstancialismo que pretendeu atomizálo, a começar pelo confinamento na limitada modéstia do berço camponês e anónimo: o feliz, e agora já quase lendário, S. Martinho de Anta (Sabrosa, Vila Real), mitificado no Agarez de O Primeiro Dia de A Criação do Mundo, essa "crónica, romance, memorial e testamento" em que o autor constrói a paróbola da sua continuada subversão a partir do seu nascimento, em 1907, até 1981. O Diário, iniciado em 1932 e abandonado apenas um ano antes da morte, revela se também imprescindível para conhecer o ser vivo ligado umbilicalmente àhistória e ao chão pátrios e as chaves sociológicas do Homem europeu, através do olhar prospectivo de um espírito bem lusitano, ironicamente lúcido na análise do papel de Portugal no mundo. Mesmo a obra poética, de quem começou por ser um intruso no campo das letras, mostra se igualmente ancorada na realidade nacional, amiúde cinzenta e adversa as mais das vezes, e na firmeza de uma religiosidade inconformada perante a ideia da morte. Quando, próximo já da maturidade, reflecte sobre o passado que fundamentou a sua estatura de guerrilheiro espiritual e a emblemática consciência nacional que começava a ser, sublinha a impossibilidade de conciliação como um dos atributos que melhor identificam a sua personalidade: "A combater desde criança com duas pedras apenas na fisga, o sim e o não, era como que uma força vital em movimento". E o combate é inicialmente travado por um menino orgulhoso contra a pobreza de um Trás os Montes rural que o quer escravizado: a recusa em ser criado de burgueses (Porto. 1917) e a rápida desistência de candidato a seminarista (Lamego, 1918), aspiração logo abandonada por quem já na altura manifestava relutância por qualquer Género de eregarismo, mostram a sua inquietação vital. A fase crucial da puberdade. com a descoberta da humilhação e do instinto sexual. decorre no Brasil (19201925), a capinar, laçar cavalos e apanhar café na Fazenda Santa Cruz, Minas Gerais, propriedade de um tio paterno. Completa o liceu em Coimbra, em apenas três épocas, e graças às mesadas que o tio ia enviando do Brasil, compensação pelo duro trabalho já realizado para ele, inicia os estudos em Medicina nesta Universidade (1928 1933), com vinte e um anos. Os primeiros contactos com o mundo literário, nomeadamente representado pelo grupo coimbrão da revista Presença (1927 1949), de cujo triunvirato director começaria por fazer parte, traduzem se na aparição do seu primeiro livro poético Ansiedade (1928) e na afirmação de uma personalidade humana, marcada por um "individualismo feroz" que o levaria àpolémica dissidência na direcção da revista, provocando também a cisão do grupo fundador, e à criação da revista Sinal em 1930, ano da publicação de um segundo conjunto de poemas, Rampa. Na Universidade confirma a vocação poética com o lançamento, sempre em edições do Autor, de Tributo (1931), Abismo (1932), e revela sobretudo uma atitude inconformista perante uma instituição envelhecida, elitista e politicamente servil bem cedo demonstrada na participação em movimentos sediciosos e de revolta e no relacionamento com intelectuais de notória filiação antiditatorial. O seu manifesto desprezo por este bastião do poder e não esqueçamos que Salazar, como catedrático de Economia na Faculdade de Direito. era o seu símbolo mais patente fica bem explícito na breve nota com que o autor inicia o Diário: "1932. Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela, nem ela repara em mim". Em 1934, após breves períodos de exercício da medicina na terra natal e em Vila Nova de Miranda do Corvo (Coimbra), Adolfo Correia Rocha irá adoptar o pseudónimo Miguel Torga identificando se com aquele arbusto espontâneo, resistente e florido em chão agreste, e com a tradição combativa e heterodoxa espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno), opção que sugere uma repugnância instintiva a compartilhar o nome com Adolfo Hitler, o ditador por antonomásia. A guerra civil de Espanha (1936 1939) cujos avatares e desenlace foram seguidos neste lado da fronteira com angustiada aflição pelos intelectuais partidários da República constituiu sem dúvida um abalo afectivo e um reactivo para a revolta e a definitiva conformação do credo político do poeta, assim como um motivo inspirador de boa parte dos Poenzas Ibéricos, essa lição de amor peninsular (1952; 1965) e do conto "Requiem" (Pedras Lavradas, 1951), da mesma maneira que a subsequente repressão exercida pelo franquismo seria denunciada nas páginas de intervenção cívica do Fogo Preso (19451976), publicado nesta última data por óbvios motivos de censura) e a indeterminação submissa de parte do povo peninsular aparece reflectida no relato "O Covarde" (Pedras Lavradas). Entretanto, a sua actividade literária não decresce: a colectânea poética O Outro Livro de Job e a fundação da revista Manifesto são anteriores à primeira viagem à Europa em 1937. É durante este percurso que constatará a degradação da Espanha em guerra, esmagada já sob um regime de terror que glorifica Franco em retratos e dísticos estampados nos muros das cidades, enquanto o povo italiano era catequizado nas doutrinas fascistas com idêntico recurso aos graffti "Mussolini tem sempre razão"; "Crer, obedecer, combater". De novo em Portugal, cursa em 1938, com 31 anos, a especialidade de otorringolaringologia com Ferreira da Costa. Estabelecido em Leiria, publica a denúncia dos horrores presenciados na Europa das Ditaduras em O Quarto Dia. O volume é logo apreendido (1939) e o autor detido sob uma vaga acusação de comunismo que incluía a infantil suspeita de recepção de dinheiro de Moscovo para a compra do instrumental cirúrgico. Transferido para o Aljube de Lisboa e libertado, sem julgamento, na Primavera do ano seguinte, publica Bichos, livro integrado por contos parcelarmente concebidos na cadeia. Os Contos da Montanha (1941), interpretados pelo olho redutor dos órgãos de repressão cultural como denúncia local das penosas condições de vida do Nordeste, foram igualmente apreendidos em Coimbra o médico tinha aberto no Largo da Portagem o consultório que viria a ser centro de conspiração contra o regime por ordem do censor Salvação Barreto: Torga iludiu a proibição enviando um maço de provas tipográficas ao Rio de Janeiro, de modo que o livro regressou ao país e circulou clandestinamente até 1969. O poema dramático Sinfonia (1947) sofreu parecida punição. Quando, com 68 anos, o poeta tem acesso à fotocópia dos processos a mágoa da "cousificação", o sentimento de ter sido um autopsiado vivo durante quarenta anos; "1975. Exsicado. via me ali reduzido a um despojo arqueológico, como se todos os meus actos fossem equivalentes e tivesse passado por ele o sopro do nada". Na continuação das tentativas de aniquilamento moral do poeta, a esposa foi expulsa da Universidade de Lisboa, junto com 31 colegas, pelas suas atitudes democráticas. O médico, por sua vez, era demitido das suas funções no Serviço de Saúde da Casa dos Pescadores da Figueira da Foz: ao ofício juntava se o montante de dois ordenados mensais, por "não existir causa justa de despedimento"! O braço de ferro contínuo com o aparelho do Estado Novo conseguiu por ventura criar dificuldades financeiras ao escritor, mas não reduziu o seu talento nem vergou a sua combativilidade: entre 1943 e 1950 publica as colectâneas poéticas Lamentação, Libertação. Odes, Nihi1 Sibi, o Cântico do Homem. os romances O Senhor Ventura e Vindima. os Novos Contos da Montanha, a peça O Paraíso e o livro de ensaios Portugal, em paralelo com a aparição dos sucessivos volumes do Diário. Numa das numerosas notas referentes ao inquinado ambiente cultural da época, exprime lapidarmente a sensação de isolamento tumulário a que a tacanhez característica do regime estava a condenar o intelectual português: "Ser escritor em Portugal é como estar dentro dum túmulo a garatujar na tampa". Em 1950 abranda a sanha persecutória do poder. É levantada ao escritor a proibição de saída do país, reiniciando as suas viagens a Espanha e Europa, coroadas pelo regresso ao Brasil da sua meninice em 1954 um ano antes do nascimento de Clara, a sua única filha como convidado ao Congresso de Escritores de São Paulo, altura em que a sua obra gozava já do reconhecimento internacional patenteado nas traduções em espanhol, francês, inglês, romeno..., e em que o povo português começava a ver nele uma referência cultural, símbolo da luta contra aquele obscurantismo tentacular do poder que destilava um desânimo paralisador nas consciências, ao ponto de recitar ou cantar clandestinamente os versos do poema "Dies ira e" tornados proclama antifascista (Cântico do Homem, 1950): "Apetece cantar, mas ninguém canta, / Apetece chorar, mas ninguém chora. / (...) Apetece gritar, mas ninguém grita. / Apetece fugir, mas ninguém foge./ (...) Apetece morrer, mas ninguém morre. / Apetece matar. mas ninguém mata. /(...) Oh! maldição do tempo em que vivemos (...)" O próprio Salazar com quem o poeta nunca se encontrou face a face não se coibia de mostrar a sua admiração pelo autor dos Poemas Ibéricos. chegando mesmo a recitar, em privado. estrofes da "História Trágico Marítima": "Noite medonha. aquela! / O mar tanto engolia a cara\ ela / Como a exibia à tona, desmaiada!" No Diário. por outra parte, analisa as x icissitudes históricas do Estado Novo e escalpeliza impiedosamente as suas nefastas consequências ("opressão", logo "asfixia" e "mediocridade") para o progresso da nação. atitudes que fazem da obra uma crónica política do Portugal submerso: referências àparticipação do escritor em comícios de apoio à candidatura presidencial de Humberto Delgado (Coimbra. Maio. 1958); à assinatura de manifestos colectivos de protesto que caíam indefectivelmente nas mãos da PIDE (Coimbra. Novembro. 1965); à doença e exoneração de Salazar e a sua substituição por Marcelo Caetano na Presidência do Conselho (Setembro, 1968); à constatação das contradições internas do regime, manifestas numa Guerra colonial "fantasma", que não hesita em convocar caricatas eleições legislativas (Outubro, 1969), cuja tipologia psicológica interpretou com implacável acerto; a consciência do perigoso nacionalismo insurgente verificado nas suas visitas a Angola e Moçambique em 1968; à inquietação pela perda das marcas da lusitanidade em Macau e Goa verificada na sua viagem de 1987; à satisfação evidenciada na data da dissolução do Conselho da Revolução, cuja presença tutelar se manteve até Outubro de 1982. É precisamente a sua convicção antimilitarista, justificada pelo passado histórico do país, que o faz acolher com cepticismo a revolução de Abril: "Coimbra, 25 de Abril de 1974 Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que durante os últimos macerados ano pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania". Mas aquela pedra afirmativa que saiu da sua fisga, sempre na mesma e teimosa direcção da não acomodação, continuaria a acertar: provam no o prestígio atingido além fronteiras (hoje a sua obra conhece versões em chinês e japonês), a celebração de homenagens públicas e actos de reconhecimento sucessivamente recusados e a atribuição de galardões nacionais e internacionais só por vezes aceites (Grande Prémio Internacional da XII Bienal de Knokke Heist, 1976; Montaigne, da Fundação alemã EV.S., 1981; Camões. 1989, na sua primeira convocatória: Prémio de Literatura Écureuil, do Salão do Livro de Bordéus, 1992. entre outros). A partir de 1986, em que foi detectada uma doença incurável num corpo já combalido e foi submetido a mais outra intervenção cirúrgica, passou intervalos internado no Hospital da Universidade e no Instituto de Oncologia de Coimbra, onde acabaria por entregar, "impoluto", o seu "branco penacho de poeta" numa manhã invernal de 1995, com 85 anos. Foi nestes locais que redigiu, em parte, o volume XVI do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do acto de viver. pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureálo em 1994. O seu multitudinário funeral de Coimbra ao cemitério da sua terra natal conciliou as manifestações de dor do povo e das altas hierarquias do país, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, conscientes da importância histórica da perda, divulgavam a notícia da morte com depoimentos e comentário biobibliográficos. Mas se é bem verdade que Miguel Torga participou em comícios socialistas e presidiu em Coimbra ao primeiro celebrado por aquele partido (01 06 1974), o escritor não fez parte de qualquer estrutura partidária. A sua oposição franca a toda a instituição que privasse o indivíduo da liberdade, a indignação que verteu na crítica aos falhanços sócio económicos dos sucessivos governos do pós 25 de Abril ou à corrupção instalada na classe política, a sua declarada ironia contra a precipitada adesão à CEE e os lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do Tratado de Maastricht verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que enfrentou a sua rebeldia mostram a sua inamovível adesão a uma causa libertária genérica. Querem Undinta quer em A Criação aflora. por outro lado, um veio de socialismo utópico assente na saudade do fraterno comunitarismo da sua infância transmontana. A imagem final que transmite o conjunto do seu pensamento político éa de um velho anarquista que sempre professou um analienável amor a um direito tenazmente conquistado: a liberdade. De facto, às virtuais tentativas de apropriação partidária do seu nome e da sua obra, podia se opor a declaração de fé que aquele Orfeu Rebelde fazia em 1973: "É escusado. Não posso ter outro partido senão o da liberdade".
BIBL.: Fernão de Magalhães Gonçalves, Ser e Ler Miguel Torga, 2." ed., Lisboa, 1995: Eduardo Lourenço, O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações, Coimbra, 1955; José Narciso da Cunha Rodrigues, "Representações da Justiça em Miguel Torga", in Aqui, neste lugar, e nesta hora, pp. 431 455. Actas do Primeiro Congresso Internacional sobre Miguel Torga, Porto, 1994.
Eloísa Alvarez In Dicionário de História do Estado Novo


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
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