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J


JUNQUEIRO, Abílio Guerra

Poeta e pensador português (n. Freixo de Espada à Cinta, 1850 m. Lisboa, 1923). Havendo se notabilizado, sobretudo, como inspirado poeta metafísico religioso, lírico e satírico, eloquente e torrencial, inovou profundamente o lirismo português do final de Oitocentos e exerceu significativa influência nos mais representativos poetas de A Águia. Idêntica importância teve a sua obra de prosador, cujo estilo influiu igualmente na expressão filosófica dos promotores do movimento da "Renascença Portuguesa", nomeadamente em obras como verbo Escuro (1914), de Teixeira de Pascoaes, e A Alegria, a Dor e a Graça (1916), de Leonardo Coimbra, em que alguns dos seus filosofemas e instituições metafísicas encontraram adequado desenvolvimento e aprofundamento especulativo ou foram objecto de penetrante crítica filosófica. A sua obra, cujo desenvolvimento ascendente veio, no final da vida, a conduzi lo ao seio da Igreja, revela, desde o início, evidentes interesses e preocupações especulativas, que o levaram a abandonar a expressão poética no início do século e a dedicar os últimos vinte anos à reflexão filosófica e à redacção de duas obras de pensamento, Ensaios Espirituais e A Unidade do Ser, que deixou incompletas e permanecem inéditas, e onde deveria conter-se o que considerava um novo sistema filosófico, uma metafísica que, partindo da física, chegaria a uma biologia e a uma moral. Como foi observado por dois dos seus mais esclarecidos, compreensivos e subtis intérpretes (Álvaro Ribeiro e José Marinho), há um evidente paralelismo e convergência nos caminhos espirituais e especulativos trilhado por Guerra Junqueiro e pelo seu amigo e companheiro Sampaio Bruno, que, partindo ambos do mais baixo nível da cultura do seu tempo o racionalismo jacobino e cientista, estreito e superficial, de acanhados limites sociológicos e humanistas , vieram, depois, a alcançar uma superior visão do homem e do Universo e um panteísmo transcendente que iria ser uma das matrizes essenciais do pensamento poético filosófico de Teixeira de Pascoaes. Com efeito, tal como o jovem Bruno da Análise da Crença Cristã, o Guerra Junqueiro das primeiras e mais ambiciosas obras poéticas (A Morte de D. João, 1874, e A Velhice do Padre Eterno, 1885) não hesita em negar a divindade de Jesus, em criticar o pecado original e o baptismo, o milagre ou a ideia vulgar de criação como acto completo e acabado situado num remoto passado, ou em afirmar que a ciência substitui a fé, para, simultaneamente, manifestar a sua crença na eternidade de Deus e na imortalidade da alma, que procura compatibilizar com um naturalismo animista e uma visão de evidente recorte panteísta ("Deus sonha e dorme nas árvores, no mar, na rocha" ou "A alma universal, misteriosa. etérea/sonhava com um Deus nos antros da matéria") e com a ideia de que, no futuro, a razão e a fé se hão de reunir numa paz harmoniosa, em que se consumará a aliança entre Prometeu e Jesus e a união da liberdade e da crença fará da natureza uma imensa harmonia e do velho Deus uru Deus Universal. Mas se a evolução do poeta se iniciou no mero plano antropológico e sociológico, limitadas as suas preocupações ao domínio da crítica social, das instituições e dos seus servidores humanos, a breve trecho se dará conta da estreiteza deste horizonte, passando, então, a alçar a sua visão e dirigir a sua atenção para um campo superior e mais vasto do que a mera vida social e abrir se, decididamente, à dimensão cósmica e divina. É então que o poeta vai cedendo, cada vez mais, o lugar ao pensador, e G.J. passa a defrontar se com a interrogação essencial: como harmonizar o absoluto perfeito, ou Deus. com a natureza imperfeita'? Como fazer sair a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do bem, o universo de Deus?
Na raiz desta séria e radical interrogação encontra se, como notou José Marinho, o contraste íntimo existente no pensamento de G.J. entre, por um lado. o fundo sentido da unidade substancial de tudo quanto existe e, por outro lado, a apreensão aguda da indefinida variedade e dinamismo das formas, do permanente e insolúvel devir. A resposta metafísico religiosa que o pensador parece haver encontrado para esta essencial interrogação e para a funda perplexidade do seu espírito é de raiz, simultaneamente, evolucionista e panteísta, e apresenta claro paralelismo com a visão metafísica expressa por Sampaio Bruno em A Ideia de Deus. Analogamente ao autor de O Brasil Mental, o pensador de A Unidade do Ser admitia três momentos essenciais e decisivos no drama cósmico: o primeiro. que permanecia para o homem um mistério insondável, ser a oricem do mal, do sofrimento, da dor e do erro; o segundo seria o domínio da evolução, da vida imortal. em que a matéria infinita, as forças infinitas. caminhando infinitamente, foram ascendendo do Q ás impalpável, do éter invisível, da nebulosa, do lodo, da planta. do verme, do monstro, até ao homem, e deste para os anjos. O homem aparece lhe, então, como o resumo ideal da natureza, um ser que vem de Deus e para Deus caminha, que "andou o infinito e lembra se, andará o infinito e já o sonha". A evolução da natureza, desde o mineral e o infusório até à forma superior de vida, que é o santo, é a infinita passagem do amor através do sofrimento, do espírito através da dor. Na verdade, a dor não é a essência íntima da vida, o substrato último, da natureza, o fundo irredutível do Universo, pois não só eleva, exalta e diviniza, como é sublimada pelo amor, que a transmuda em alegria ou sofrimento espiritualizado. Deste seu evolucionismo, cujas noções essenciais se reconduzem, então. à de movimento, de transformação e de metamorfose, em que a linguagem inadequada do transformismo designa uma transfiguração ético espiritual (José Marinho), deduz o pensador algumas fundamentais conclusões metafísico religiosas. Reporta se a primeira ao modo como G.J. concebia a própria Filos como dialéctica da razão do homem, sistematizando e codificando a natureza, como história ordenada da evolução do amor. Como, porém. a vida da natureza só chega à síntese na ideia de Deus, G.J. antecipando aqui Leonardo Coimbra, para quem a Filo,,. de\e acabar se em religião, entendia que a filos. integral seria religiosa. pois só no ser divino a vida encontra a sua unidade e a clara explicação do seu mistério. Por outro lado, o filósofo, sendo o espírito abstracto e metafísico, que vive a vida invisível e íntima do Universo, defrontando o enigma eterno, observando a vida e descrevendo a por cálculos, ordenando a por argumentos e por ideias, e assim descobrindo e encadeando os passos do amor, a sua marcha e a sua vitória, é, necessariamente, um teólogo. O santo e o poeta. porém, conhecem melhor a vida do que o filósofo, pois são a vida espontânea e criadora, na sua escala mais alta e vertiginosa. e no estado nascente, jorrando da vontade e da emoção. No plano antropológico. um aspecto do pensamento de G.J. merece aqui referência: o que respeita às formas ascendentes de reacção emotiva do homem perante o Universos. nas quais o pensadorpoeta distingue três graus, a emoção dinâmica, a emoção ncoral e a emoção divina, em que, no espelho cada vez mais profundo da alma humana, que vai ascendendo do domínio sensível ao plano da razão e da consciência e deste ao sublime reino da visão religiosa, a natureza se lhe vai, sucessivamente, revelando como movimento infinito, dor infinita, amor infinito. Estreitamente ligada a esta visão dos níveis de relação emotiva do homem com o Universo se encontra a ideia de Deus de G.J., para quem o ser divino aparece, então, como "o amor infinito vencendo infinitamente a infinita dor". Completando e esclarecendo esta sua ideia de Deus. G.J. acrescenta que. porque só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, sendo esse amor absoluto. sustenta se do sofrimento da natureza e, para ser a perfeição absoluta, encarnou na imperfeição ilimitada do Universo, sem o qual não é possível compreendê lo, já que o Universo é o corpo de Deus. Assim. sendo acto infinito, amor infinito, a realizar se pela infinita vontade na duração infinita. Deus éabsolutamente perfeito na diversidade infinita. pois sem ela não há nem pode haver a união suprema. O imperfeito é, assim, a condição do perfeito, como o mal é a condição do bem e o erro a condição da verdade, pelo que eliminando ou destruindo o imperfeito ou relativo se destruiria o perfeito ou absoluto, já que, então, o absoluto seria o absoluto não ser e o infinito amor de semelhante Deus seria o infinito amor de si próprio, o infinito egoísmo. Assim, para G.J., Deus como corpo, como natureza, sofre infinitamente, mas Deus espírito puro, Deus amor absoluto, que vive e se sustenta das dores infinitas do Universo, não sente dor nem sofrimento aleum, triunfando eternamente dos sofrimentos eternos do seu corpo. O evolucionismo panteísta de G.J. que, tal como o de Pascoaes, que dele em larga medida descende, foi argutamente criticado por Leonardo Coimbra no livro que dedicou ao poeta filósofo admitia, como o de Bruno. um terceiro e final momento em que se consumaria o regresso ao homogéneo inicial, a unidade do Ser ou o regresso de tudo quanto existe ao seio divino, processo de redenção em que, como pensava o filósofo de O Encoberto, cabe aos heróis, aos artistas e aos filósofos um papel decisivo, o de caminhar à frente da evolução, na marcha do mundo de regresso a Deus e em que o ser divino colabora com a acção do seu infinito amor. Admitindo embora ambos que a redenção final do Universo e a reintegração em Deus se operará pela intervenção de uma figura messiânica, divergiam, porém, entre si no modo de entendê la, pois, enquanto Bruno, recorrendo à profecia ou à prognose, anunciava a vinda de um novo Cristo, G.J. ima£,inava o regresso de Jesus à terra, ideia teatralizada, mais tarde, por Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes na peça Jesus Cristo erra Lisboa (1927), a que, no entanto, o pessimismo do primeiro, seu principal autor. vem dar um sentido diverso do optimismo metafísico junqueireano.
BIBL.: Leonardo Coimbra. Guerra Juro¡ueiro. 1923; Amorim de Carvalho. Gucr ru Jungueiro e a Sua Obra Poética. 1945: Teixeira de Pascoaes. Guerra Junq¡ueiro, 1950: id.. O Drarncr Jrrrrc¡rreirecrrro. 1050: José Marinho, "Poesia e verdade em Guerra Jnnqueiro". in Ocidente, n.°s 149 150. 1950: Álvaro Ribeiro, A Arre de Filoso/ar. 1955; Manuela de Azevedo. Guerra Junqueiro A Obra e o Homem, 1981.
A. Braz Teixeira In Logos. Enciclopédia Luso Brasileira de Filosofia, 5 volume


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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