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Transmontanos e Durienses +

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JANEIRA, Virgílio Armando Martins

Nasceu em Felgueiras, concelho de Moncorvo, em 01.09.1914, falecendo no Estoril em 19.07.1988. Foi uma figura cimeira da cultura portuguesa do século XX. Em 1998 foi editada Nova Peregrinação um opúsculo que reuniu testemunhos vários sobre este Transmontano, dando suporte a uma exposição catálogo sobre a sua obra. António Quadros proferiu um discurso na cerimónia de homenagem promovida pela Associação de Amizade Portugal Japão. em 25.07.1989, no Palácio Galveias. O texto dessa palestra foi incluído neste opúsculo organizado pela Câmara de Cascais e através da investigação e concepção de Clara Pavão Pereira e Ingrid Bloser Martins. Os elementos que escolhemos para esta biografia são extraídos desse documento. "Formou-se em Direito, na Universidade de Lisboa, tendo optado pela carreira diplomática, que abraçou em 1939, servindo Portugal em diversos cargos e postos. Escreveu nesse âmbito obras de Direito Consular Internacional. Profundamente atraída pelo Japão país onde serviu Portugal por duas vezes pela sua cultura, história, natureza das gentes e pela sua relação com o povo português, primeiros ocidentais com quem contactaram, muito incentivou o estreitamento dos laços entre os dois povos, nomeadamente através da criação da Associação de Amizade Portugal Japão. Homem de elevada cultura, estudioso atento da realidade japonesa, cuja língua dominava, produziu uma vastíssima obra literária, ainda hoje de referência obrigatória para os que se interessam pelo país do Sol Nascente. São ainda de leitura obrigatória os seus ensaios, estudos comparativos das literaturas do Oriente e Ocidente e também das religiões do Mundo. Além dos textos dedicados ao Japão, escreveu diversas peças elaborados estudos da natureza e vida humanas, na sua maior parte inéditas O valor dos seus trabalhos pode comprovarse pelo elevado número de reedições, sendo a mais recente a de uma análise da obra de Wenceslau de Moraes. com quem se identificava no amor ao Japão. e ainda, pelas edições em língua estrangeira, nomeadamente japonesa e alemã. Manteve durante diversos anos uma coluna no Jornal do Comércio do Porto e Diário de Notícias, tendo ainda colaborado regularmente com outros jornais e revistas portuguesas e estrangeiras. Após a sua aposentação do Ministério dos Negócios Estrangeiras, em 1980, abraçou a vida académica com devoção e entusiasmo, tendo leccionado História Contemporânea das Civilizações Orientais, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Nesta Faculdade criou, ainda, o Instituto de Estudos Orientais e uma Biblioteca especializada, destinados ao aprofundamento das investigações sobre as civilizações do Extremo Oriente. As suas qualidades de orador e pedagogo levaram no a participar em variadíssimos encontros e conferências, nacionais e internacionais, com trabalhos dedicados ao Japão. Tendo optado por fixar residência no Estoril, viveu no Concelho de Cascais durante largos anos, nos períodos entre as transferências para cada um dos postos que serviu, e após a sua aposentação. Por decisão de sua mulher e filhos, o seu espólio documental e arquivo pessoal estão depositados desde 1993 ano em que se comemoraram os 450 anos da chegada de Fernão Mendes Pinto ao Japão, no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, permitindo a investigação sobre a sua vida e obra. Concluídos os trabalhos de descrição do acervo à guarda do Arquivo, completados dez anos sobre a sua morte, échegado o momento de prestar homenagem a Armando Martins Janeira. Sob a designação que escolheu para a sua autobiografia Nova Peregrinação na senda de Fernão Mendes Pinto , apresenta se a sua vida e obra, sempre que possível nas suas próprias palavras, através dos "papelinhos" que deixou e dos textos editados.
Clara Pavão Pereira
Num gesto carregado de simbolismo, os herdeiros de Armando Martins Janeira depositaram em 1993 ano em que se comemoravam os quatrocentos e cinquenta anos da chegada dos portugueses ao Japão o arquivo deste Embaixador da diplomacia e da cultura portuguesas no Arquivo Histórico Municipal de Cascais Cinco anos após celebrando se outro marco da expansão portuguesa, a descoberta do caminho marítimo para a índia e decorridos dez anos sobre a sua morte, encontrando se integralmente descrito o Arquivo do Embaixador Armando Martins Janeira no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, tomamos a iniciativa, juntamente com a Senhora Embaixatriz Ingrid Martins de relembrar a sua vida e obra. Numa exposição em que se realça o trabalho de Armando Martins Janeira em prol da cultura e do relacionamento entre os povos, apoiada no seu próprio espólio, nos documentos e objectos que produziu e reuniu ao longo da vida, homenageia se este homem ímpar na política externa portuguesa, ainda hoje reconhecido como reputado especialista, com uma obra incontomável na Investigação sobre o Oriente. Em nome da Câmara Municipal de Cascais agradeço a confiança de ontem, de sua mulher e filhos no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, e o apoio e empenho na Realização desta Iniciativa.
José Luís Judas Presidente da Câmara
O Embaixador Armando Martins Janeira é um dos grandes nomes da diplomacia e da cultura portuguesas da segunda metade deste século. Digo é e não foi pois um legado como o seu, nesses dois domínios, nunca pertence ao passado, eternizando se pelo conteúdo humanista de que é portador.
Foi através de autores como Armando Martins Janeira ou Wenceslau de Moraes que descobri o fascínio da cultura oriental, em particular da japonesa. Cada vez que releio as páginas do embaixador escritor que deixou o seu nome ligado a Cascais reencontro sempre novos motivos de interesse e paixão. No Japão, tive o ensejo de confirmar o prestígio de que goza ainda hoje Armando Martins Janeira, justamente considerado, naquele país, como um grande embaixador da portugalidade naquelas longínquas paragens do mundo. Na origem desta exposição que a Câmara de Cascais se orgulha de apresentar ao público está o facto de o seu espólio literário se encontrar depositado no Arquivo Histórioco do Município. Esse espólio representa, em toda a sua extensão e profundidade, o olhar de um homem culto, cosmopolita, sensível e profundamente humanista sobre o mundo do seu tempo e sobre os pontos de contacto que devem contribuir para a aproximação pacífica e reciprocamente enriquecedora de culturas e civilizações estruturalmente diferentes. Fernão Mendes Pinto escreveu a "Peregrinação", livro angular em toda a história da relação portuguesa com o inundo. Esta nova Peregrinação retoma essa herança de viagem, assombro e descoberta e confere lhe a sináular dimensão da contemporaneidade. Martins Janeira foi um grande conte rrrporâneo e essa condição está bem patente na modernidade do seu conceito de investigação antropológica e cultural. Não posso deixar de sublinhar a importância da acção desenvolvida pela sua viúva, senhora Embaixatriz Ingrid Martins Janeira, ilustre munícipe de Cascais, não só na preservação e divulgação desse espólio, mas também na própria vida cultural de Cascais. em que intervém regularmente cora a qualidade da sua presença. do seu gosto e do seu apurado sentido crítico. Esta exposição é uma homenagem simbólica a um homem que, na diplomacia, na literatura, no ensaísmo, na investigação e na cidadania, deixou exemplos fulgorantes do que deve ser compreendermos o nosso tempo e ajudar os outros a perceberem no melhor, sempre numa perspectiva plural, edificante e cnriquecedora do ponto de vista cultural e artístico. Por tudo isto, o Pelouro da Cultura da Câmara de Cascais não pode deixar de se congratular com a realização desta exposição, que constitui apenas o primeiro passo do muito que pretende fazer relativamente ao nome, à vida e à obra de um homem que deixou entre os seus contemporâneos sobejos motivos de respeito e de profunda admiração.
José Jorge Letria Vereador elo Pelouro da Cultura
Também eu andei pela Ásia, atravesseia uma dezena de vezes, pisei todas as suas capitais, passei em terras onde um português não aparecera desde há três séculos. Superficial e rápido, em avião, conheci mais países do que outro Aventureiro meu Avô, Fernão Mendes Pinto. Dei volta ao mundo, e em cada novo país aprendi novos ensinamentos: no Japão, porém, aprendi as três coisas mais importantes: estimar a pobreza, viver com serenidade. e encarar sem temor algum a morte. Entre os japoneses fui encontrar aquele gosto pela sobriedade e pela vida simples na natureza, aquele amor da coragem e aquele sentimento de orgulho e de humildade que aprendi de criança no meu Trás os Montes. No fim de contas, as grandes virtudes no homem resumem se na bondade. na coragem, no sentimento de gratidão, e na fidelidade à palavra. Estou grato à vida, e na casa dos cinquenta sinto ainda o coração aberto aos ventos largos do mar e da terra. com sede de descobrir outro desconhecido mais fúlgido e embriagante ainda. Por onde quer andasse, levei sempre comigo as coisas que me são mais caras: a saudade das pessoas queridas, os grandes escritores da minha língua, e algumas pedras transmontanas. Nunca me senti tão português como no tumulto exótico das vastas cidades da Ásia e na soledade austera das serras do meu Trás os Montes. As canções da minha terra fizeram me :emir companhia: cantei as sozinho a galgar longas estradas perdido entre estranha: paisagens e mais estranhas línguas. como :e eaivesse a falar ao céu da minha pequena ald eia e cantei as mansamente para adormecer os meus filhos, sob o calor das noite: mais exóticas. A Terra é uma maravilha e mais maravilhosas ainda as gentes, que nela vivem e nos acolhem cora hondade. Viver para mim tem sido um conaante milagre, tanta beleza e tantos caminhos têm deslumbrado os meus olhos. O Japão vai já ficando longe da minha lembrava. Também lá semeei esforços e esperanças, amei amores, cultivei amigos, e conheci felicidades, outras imagens. .Amo as palavras da minha língua, e por isso é com alegria que, depois de meditar na Rrandeza desses homens que espalharam a glória de Portugal no Japão, cedo ao impulso de te contar a ti, meu irmão português, também os meus trabalhos e aventuras nesse país singular que tem o dom de fascinar todos os portugueses que desde há quatro séculos o vêm descobrindo. Lá trabalhei com amor e entusiasmo, guiado pelo propósito de levantar o nome de Portugal. Lá deixei uma obra, modesta, mas firme e espero que duradoura, que será o melhor que de mire ficará nesta breve passagem pela terra. Sei que nunca mais serei capaz de encontrar trabalho tanto do meu gosto, a que me entregue de tanto coração. É profundamente consolador trabalhar para Portugal; e é ainda maior, e único e inefável. o sentimento de continuar uma grande obra. acrescentar alguma pequena pedra ao grande edifício que outros ergueram, alteroso e firme sobre o tempo e os homens transitórios, para um fim desconhecido que nos ultrapassa. Deixei a Ásia longínqua, estranha e fascinante; regressei àminha mãe Europa; foi bom sentir de novo o calor do sentimento familiar da cultura reais cara à minha alma, que a divina Luz da Grécia ilumina, e retemperar no ar e na doce luz do Tejo a alma abalada por tantas e tão raras comoções recolher-me e preparar me para porventura ensaiar novas sortidas. Um dia virá em que, sentado sob o doce céu do meu País, enfim em paz e sem desejos, poderei abandonar a imaginação livre às brisas perfumadas da minha serra e, seguindo as nuvens brancas que a luz mais bela do mundo doira. repassar na mente as formosas paragens por onde andei. e os amigos que cada dia me falam na lembrança, tão distante que já hoje me parece tudo um sonho que vivi.
Armando Martins Janeira In "Nova Pereirinação”


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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