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DEUSDADO, Manuel A. Ferreira

Pensador português (n. Rio Frio, Bragança, 1858 m. Lisboa, 1918), efectuou os estudos secundários nos liceus de Bragança e Vila Real, passando depois para o Curso Superior de Letras, que concluiu com distinção em 1884 e de que, três anos mais tarde, seria designado lente extraordinário, na cadeira de Literatura Grega, durante o impedimento de Pinheiro Chagas. A partir de 1890 passou a leccionar no ensino secundário, primeiro em Braga, depois em Lisboa, e, por fim. em Angra do Heroísmo, de cujo liceu foi professor até à morte, ocorrida em Lisboa. Fundou e dirigiu, de 1886 a 1900, a Revista de Educação e Ensino, em que colaboraram as mais destacadas figuras do tempo. Foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa (1895) e da Academia Real da História, de Madrid (1899), e doutor honoris causa pela Universidade de Bruxelas (1897). A sua vasta obra, além de livros e ensaios de temática estritamente filosófica, compreende também estudos sobre assuntos pedagógico. de psicologia e de antropologia criminal. Apresentandose como sequaz do espiritualismo neokantiano ou neocriticista. na versão francesa de Lachelier e Renouvier, Ferreira Deusdado atribuía à Filos. uma tripla missão: explicar o universo atra\ és de um elemento irredutível e necessário que garanta a harmonia entre o mundo subjecti\o e o objectivo, introduzir a unidade nas ciências e esboçar o ideal da vida que corresponda às aspirações dos povos modernos. Deste modo, a Filos. tinha como núcleo essencial a metafísica e a ética. distinguindo se claramente da ciência. cuja unidade gnoseológiea e validade dependem daquela. Para ED., a metafísica tem como objecto o absoluto, concebido não como transcendência mas como condição do conhecimento, ideia simples da razão e lei objectiva do pensamento, isto é. como conjunto dos princípios irredutíveis de espaço, tempo, número, substância e causalidade, que se impõem ao espírito como condição do pensamento e razão suficiente da existência das coisas. A metafísica é, assim, a condição primeira do conhecimento científico, pois são os princípios que constituem o seu objecto que tornam possível a ciência e garantem a sua unidade. Tendo como incontestável a existência autónoma do espírito, entende o filósofo que aquele se singulariza pelo seu carácter activo, pela energia que lhe é própria, em contraste com a passividade que define a matéria. O que constitui a especificidade do homem relativamente ao restante mundo animal é a capacidade de formar ideias gerais e de conceber os princípios universais, bem como o sentimento religioso, moral e estético e o Dom da palavra e da linguagem, sem o qual não seria possível o raciocínio lógico. Por seu turno, o sentimento religioso tem a sua fonte não só no medo e na admiração que o homem sente perante o mistério do universo, mas, acima de tudo, na faculdade mitogénica, que impele a espécie humana a buscar o sentido e a origem de um mundo que o sentimento lhe diz não poder ter em si próprio a sua causa e a leva a criar mitos e a deificar seres. Quando considerada de um ponto de vista exclusivamente psicológico, a origem do sentimento religioso encontrase, pois, nesta aspiração humana para o infinito e para decifrar o mais fundo e essencial mistério do universo. Mas porque se trata de um mistério, as respostas que o espírito humano tem encontrado ou proposto pertencem mais ao domínio da fé do que ao da estrita racionalidade, o que revela, segundo ED., que a fé e o sentimento religioso são inseparáveis do homem e da sua tendência para conhecer, possuir e eternizar o verdadeiro, o belo e o bem, vencer o mal e caminhar no sentido do seu progressivo aperfeiçoamento. Aqui se encontra, então, o elemento que permite o trânsito da psicologia para a ética, cujo núcleo é constituído pelas ideias essenciais de liberdade, dever e progresso. No pensamento de F. D., a liberdade moral vem a coincidir com o livrearbitrio e este tem na vontade a causa das acções humanas. A liberdade define se como a faculdade de praticar ou deixar de praticar um acto, o poder de querer actos motivados, encadeados ao estado presente do entendimento e da sensibilidade de cada um. No seu querer, a vontade carece, porém, de uma norma ou critério que oriente a sua acção. Tal norma é a lei do bem e do dever, que a consciência moral fornece à razão e esta desenvolve como ideal de vida humana e seu fim supremo. A lei moral, que determina a cada um que faça o bem e não o mal, impõe se de modo absoluto e imediato à consciência, exigindo que cada um procure o seu aperfeiçoamento intelectual e moral e, pela virtude, ascenda ao máximo amor do maior número. Daqui retira o filósofo a conclusão de que o mal, cuja existência e presença no mundo criado é inegável, não é inato e inerente à natureza humana. mas provém unicamente da educação e dos hábitos contraídos. pelo que pode ser reduzido ou até suprimido. É nesta ideia que se funda a orientação que defende no domínio da pedagogia e da criminologia, que, segundo ED., deveriam encaminharse no sentido de cultivar e desenvolver o sentimento moral e inculcar o princípio do dever, transformado em hábito o amor pelo bem e a prática da justiça. Considera o pensador que a educação pode alcançar este objectivo porque o espírito humano obedece à lei do progresso, que, assim como se revela na sua aspiração ilimitada para o melhor, mostra, igualmente, que ele éperfectível. O fundo católico e conservador da formação e educação de F.D. parece terem no encaminhado, posteriormente, no sentido do neotomismo, se bem que nenhum testemunho nos haja legado o pensador desta possível nova orientação do seu pensamento, para além de um ensaio histórico sobre a filos. tomista em Portugal, do qual, no entanto, não é possível retirar nenhuma conclusão sobre a sua eventual adesão a esta corrente de pensamento que, nos últimos decénios do séc. XIX, teve algum acolhimento na Faculdade de Teologia e nos estabelecimentos de ensino eclesiástico.
OBRAS PRINC.: Ensaios de Filosofia Actual, 1888; Estudos sobre Criminalidade e Educação, Filosofia e Antropologia, 1889; Essais de Psvchologie Crintinelle, 1890; Ideias sobre Educação Correccional, 1890; O Ensino Carcerário e o Congresso Penitenciário Internacional de S. Petersburgo, 1891: Psicologia Aplicada à Educação, 1892; A Antropologia Criminal e o Congresso de Bruxelas, 1894: La Philosophie Thomiste en Portugal, 1898; A Sugestão Hipnótica na Educação, 1898: Educadores Portugueses, 1909; A Crise do Ideal na Arte, 1916.
BIBL.: F. Manuel Alves, “ O Dr. Manuel Ferreira Deusdado, in O Instituto. 1919; id.. Esboço de uma apreciação, ou o Dr. Ferreira Deusdado, educador, filósofo e escritor, 1919: J.G. Bettencourt Ferreira Uni Filósofo Português rio Século XIX. 1925; Moniz Barreto. Ensaios Críticos. 1944; id.. Estudos Dispersos. 1963; Pinharanda Gomes. pref. À trad. de A Filosofia Tomista em Portugal, 1978.
A. Braz Teixeira


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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