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A


AMARAL, Jerónimo Teixeira de Figueiredo

viria a ser sucessivamente Dr. Jerónimo Amaral, depois Padre Jerónimo Amaral, enfim Monsenhor Jerónimo Amaral. nasceu em 1859 na Casa de Urros (freguesia de Mateus) e ali viveu até ao seu falecimento em 1944. Foi uma das figuras maiores do concelho, pela sua acção a favor da comunidade como pela rigorosa coerência de toda a sua vida, fiel sempre a valores de que nunca se afastou. Foi de resto esta coerência que, em tempo de grandes clivagens sociais por um lado as ideias liberais, por outro lado as ideias conservadoras, católicas e nacionalistas , dividiu radicalmente a sociedade vila realense na apreciação da sua pessoa e da sua obra. É preciso notar que, nessa época, Vila Real era um centro republicano importante, com uma imprensa pujante e aguerrida. É certo também que o número dos que tinham sobre a sua acção uma opinião negativa vai diminuindo à medida que o tempo passa e a sua obra vai sendo reconhecida. Mas o reconhecimento desta fica muito aquém do que seria justo: não vai além da inclusão do seu nome na toponímia local, da atribuição do mesmo a um estabelecimento de ensino e de um pequeno busto, hoje deslocado da sua localização original. E só muito tarde, em 1936, por ocasião de uma visita do então Presidente da República, General Óscar Fragoso Carmona a Vila Real, Monsenhor Jerónimo Amaral é agraciado com a Comenda da Ordem de Cristo, e mesmo então num gesto que incluía outras pessoas, como o Dr. João António Cardoso Baptista (responsável pelo Amparo de Nossa Senhora das Dores), Paulino Correia da Rocha (um benemérito cujo nome o tempo ajudou a esquecer), José Alves ("um honroso e venerando" lavrador de Folhadela) e, alguns dias depois, o próprio Governador Civil do Distrito, Tenente Horácio de Assis Gonçalves. Dois anos mais tarde seria igualmente agraciado com a Ordem de Instrução Pública.
Convenhamos que havia razões para as forças mais liberais manifestarem desconfiança e incompreensão. Era difícil aceitar que um rapaz jovem, bem parecido, ilustrado, bacharelem Direito (título que continuará a referir até 1896, já depois de ordenado sacerdote), senhor de grandes meios de fortuna e credor de consideração social, optasse por dedicar se à religião e exercer obra considerada da reacção. A desconfiança instala se quando em 8 de Março de 1892 o Padre Jerónimo Amaral diz missa nova, na Capela da Casa de Mateus, perante cerca de 3 mil pessoas, atraídas ali pela curiosidade. pela incredulidade, pela festa e também, talvez o maior número, pela oportunidade de receber uma esmola. Alguns meses depois. o Padre Jerónimo Amaral abre o Colégio de Nossa Senhora do Rosário, primeiro na antiga Colegiada de Santa Ana e depois mudado para o edifí cio que constrói de raiz, dirigido pelo Padre Damião Martins. E a desconfiança cresce nos seus detractores, que vêem com desagrado serem escolhidos para professores padres da Companhia de Jesus, em detrimento dos ,grandes nomes locais, padres e bacharéis, ligados ao ensino. Houve então quem insinuasse não se saber ao certo se aquilo era um colégio, um seminário ou "um quartel do exército negro". E a animadversão para com Monsenhor Jerónimo Amaral (a quem fora concedida esta dignidade em 1896) não cessa de crescer, quando o vêem disputar as eleições legislativas mais dramáticas do regime constitucional, em Agosto de 1910, nas listas do Partido Nacionalista, tendo sido até aí militante do Partido Progressista. O Partido Nacionalista, fundado por Jacinto Cândido da Silva, defendia o catolicismo de inspiração jesuíta e um nacionalismo exacerbado, e nascera de uma cisão no seio do Partido Regenerador. Esta atitude de Monsenhor Jerónimo Amaral vale lhe por isso o ódio simultâneo dos progressistas e dos regeneradores. Mas a verdade é que, se alguma coisa tinha mudado, teriam sido o Partido Progressista e o Partido Regenerador, e não Monsenhor Jerónimo Amaral. Ele não se afastou um milímetro do seu pensamento de sempre. Acreditava que os governantes da fase final do regime monárquico e o próprio rei, prosseguiam um caminho exage radamente liberal e radical nas questões religiosas, e erguia desse modo o seu protesto. Mas esta intervenção política terá sido apenas um episódio sem outras consequên cias na vida de Monsenhor Jerónimo Amaral. Ele dedicar se ia sobretudo à vida religiosa. Trocou uma vida de honrarias e facilidades pelo sacerdócio humilde, recusando as dignidades, que lhe foram oferecidas, de bispo de Bragança e depois de Vila Real. Criou um estabelecimento de ensino onde se promoviam as suas ideias de propagação da fé. Como orador sagrado, os seus sermões foram exemplares na exaltação da fé. Dedicou se também à benemerência, que quase podemos dizer que foi a grande razão de ser da sua vida. Dotado de grande bondade, colocou a sua fortuna ao serviço das grandes e pequenas obras de interesse social. Além do referido colégio, construiu um novo edifício para o Liceu, que mais tarde trocou ao Estado pelo Convento de Santa Clara para nele se construir o Seminário Diocesano. Vendeu o seu Colégio à Misericórdia por baixo preço, para esta instalar ali o hospital, acanhado nas instalações que ocupava naquele que é hoje o edifício dos Paços do Concelho. Pagou do seu bolso a bula pontifícia que cria a Dio cese de Vila Real, de que viria a ser vigário geral. Adquiriu e mobilou um edifício na Avenida Carvalho Araújo para Paço Episcopal e, quando o bispo se mudou para o seminário entretanto construído, vendeu esse edifício e entregou o dinheiro à Diocese. Cedeu inúmeros terrenos para expansão da vila na margem esquerda do Corgo. Cedeu o chão para o Santuário de Nossa Senhora de Lurdes e custeou em parte as obras respectivas. Seria enfadonho referir os mil e um pequenos e grandes gestos com que favoreceu a comunidade, mas, a título de exemplo, refira se um: a construção de um altar na sala número 1 na Cadeia Civil, onde foi autorizada, a pedido do padre Domingos Peixoto, a celebração da missa aos domingos e dias santificados, sendo a primeira celebrada por Monsenhor Jerónimo Amaral, no dia 10 de Abril de 1899. Mas, envolto quase numa aura de santidade, Monsenhor Jerónimo Amaral era no fundo uma pessoa como as outras, com a sua teia de relações (era amigo próximo dos padres Filipe Borges e Luís Castelo Branco, e visita assídua dos seus vizinhos da Casa das Quartas), frugal na alimentação, solicito nos pedidos com que constantemente o confrontavam, grande devorador da imprensa periódi ca, entusiasta das actividades de ar livre, apreciador de futebol, amigo de uma boa partida de cartas... Humano, no final de contas.
Texto apresentado no Museu de Vila Real, integrado no programa História ao Café, em 10/11/1998


In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas, Capa dura.
Editora Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães - Tel/Fax: 253 412 319, e-mail: ecb@mail.pt
Preço: 30€

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